Porque minha cidade alaga quando chove?

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São muitas as causas apontadas para os alagamentos que ocorrem nas cidades em dias de chuva: uns dizem que é “falta de infraestrutura”… outros preferem culpar aquele papelzinho de bombom que você jogou “sem querer” na rua.

É fato que ainda são insuficientes as galerias de drenagem de águas pluviais nas cidades, bem como, podemos inferir que os 30g de resíduos que caem “sem querer” na calçada, multiplicados pelo número de habitantes, geram algumas boas toneladas de resíduos que fatalmente irão entupir as galerias, porém, a causa principal disso tudo, está para muito além desses fatos.

Posso afirmar sem ressalvas, que o histórico processo de planejamento urbano das cidades sem a efetiva incorporação do conhecimento sobre o meio ambiente tem permitido uma indiscriminada substituição dos entes naturais (solo, rios, riachos, lagoas, vegetação, etc) por ambientes artificializados, com base no argumento do “direito à cidade”, do “direito à moradia” e do desenvolvimento.

Sim, sabemos que existem estes direitos, e sim, também concordamos com o desenvolvimento. Porém, ao realizar um “planejamento urbano” sem (re)conhecer o sistemismo da natureza, tem-se como consequência a perda de outros direitos, tais como: o direito a um meio ambiente saudável e equilibrado, dentre outros.

Para entender melhor, é preciso obter algumas noções fundamentais sobre o meio ambiente:

1. Antes de existir a cidade, o território já existia contendo em seu interior os entes naturais já citados;

2. A estrutura hídrica dos territórios é interligada e sistêmica, de modo que qualquer alteração em um ponto X trará consequências diretas (alagamentos) num ponto Y à jusante, e num ponto Z à montante, e num outro ponto W à jusante, e assim sucessivamente;

3. A natureza é resiliente e com alta capacidade de adaptação e, por mais que seus “caminhos naturais” sejam alterados por nós, ela sempre buscará um meio de retomar seu curso natural;

4. Os entes naturais no ambiente urbano nos prestam “serviços ecossistêmicos”, o que seria equivalente à função ecológica desempenhada em condição natural.

Dito isso, fica mais fácil compreender o real motivo de nossas cidades ficarem alagadas em dias de chuva, senão vejamos:

Para edificar casas e empreendimentos, bem como, para construir vias de acesso a essas edificações, realizamos alterações abruptas na natureza tais como: nivelamento de terreno; impermeabilização do solo; rebaixamento de lençol freático; canalização de rios; aterramento de lagoas; […] isso só mencionando o básico.

Ao realizar tais ações estamos alterando toda uma cadeia natural sistêmica, perdendo os serviços ecossistêmicos e produzindo problemas e prejuízos para nós mesmos.

A avenida por onde o seu carro não passa no dia de chuva, certamente outrora pode ter sido um rio ou um riacho afluente. Na cidade de Fortaleza esse é um exemplo clássico. Temos a Avenida Heráclito Graça (Foto da capa) que sempre fica intransitável em dia de chuva por conta do nível de água acumulado. Quem conhece a estrutura natural da cidade, sabe que ali em tempos pretéritos, corria o Riacho Pajeú (principal riacho histórico da cidade). Conforme já mencionado, a natureza sempre tenta retomar o seu curso natural. Logo…

Outras perdas de serviços ecossistêmicos também contribuem para os alagamentos: abaixo do asfalto dessas ruas e avenidas, existe um solo confinado, o qual outrora permitia que a água da chuva percolasse (infiltrasse) diminuindo assim os níveis de alagamento. As árvores arrancadas para permitir a construção dessas vias, teriam a capacidade de amortecer milhares de litros de água da chuva. Agora pense em todo esse contexto, ocorrendo repetidas vezes em todo o território.

Você então poderia me perguntar: não poderíamos ter construído as cidades? Não poderíamos ter construído vias?

Eu lhe respondo: claro que poderíamos e podemos!!! Porém, com o devido respeito aos limites da natureza e com o aproveitamento dos serviços ecossistêmicos devidamente incorporados no planejamento urbano desde sempre.

Mas isso… somente teria sido possível se as equipes de planejamento tivessem sido desde sempre multidisciplinares, envolvendo biólogos, geógrafos, urbanistas, engenheiros, e muitas outras especialidades. Porque absolutamente nenhuma ciência e nenhuma profissão é capaz de sozinha deter todo o conhecimento necessário para planejar e desenvolver uma cidade.

Nesse caso, as vias não seriam todas necessariamente asfaltadas, assim como alguém teria demonstrado tecnicamente os efeitos sistêmicos das canalizações, aterramentos e desvios de cursos d’água. Alguém também poderia ter informado sobre a importância de manter a biodiversidade representada pela vegetação e pela fauna, bem como demonstrado o tamanho da perda em serviços ecossistêmicos e o impacto econômico de tais decisões equivocadas.

Então a partir de agora se você ouvir alguém perguntando: “porque não pode dar uma chuvinha que já fica tudo alagado?” lembre-se de dizer que a culpa é da falta de infraestrutura e do papel de bombom… mas também lembre-se de dizer que a causa é a histórica ausência de planejamento urbano multidisciplinar e a falta de compreensão do QUE É e do quão grande é o valor da natureza!!!

Texto originalmente publicado em: https://www.linkedin.com/pulse/porque-minha-cidade-alaga-quando-chove-magda-helena-maia

Foto: Deivyson Teixeira

Um comentário em “Porque minha cidade alaga quando chove?

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