Depois que o Decreto do Parque do Cocó veio…

Nos últimos dias muito tem se falado sobre a data 04 de Junho de 2017, considerada como um marco histórico na luta pelas questões ambientais da cidade de Fortaleza, pois finalmente o Parque do Cocó (que sempre existiu de fato mas nunca de Direito) foi oficialmente decretado como uma Unidade de Conservação de Proteção Integral, tendo sua delimitação (poligonal) estabelecida formalmente.

De fato, há décadas a sociedade fortalezense espera pela regulamentação do Parque e ainda há muito mais tempo ambientalistas expõem para a sociedade sobre a urgência de se tratar as questões ecológicas de maneira responsável.

Quantos governos passaram nesse intervalo de tempo prometendo e não cumprindo a legalização desta Unidade de Conservação (UC) que nada mais é do que “aquilo que ainda nos resta” de natureza em Fortaleza junto com a região da Sabiaguaba?

O fato é que finalmente um governo (Estadual) assume e cumpre o compromisso de legalização do Parque e grande parte da população fortalezense comemora e agradece. Contudo, uma outra parcela importante da população não parece estar disposta a comemorar e suas razões parecem legítimas.

Isso porque apesar de ter havido um processo “participativo” para o estabelecimento da poligonal do Parque, muitas áreas de grande relevância ecológica (dunas, nascentes, restingas, faixa litorânea, estuários, etc) ficaram de fora, tendo como base a argumentação de que o Governo do Estado não teria recursos para desapropriar tais terrenos particulares, dentre outros argumentos de acordo com a especificidade da situação.

Para além das críticas à poligonal em si, inauguraremos também nesta data um novo contexto na cidade de Fortaleza o qual precisará de atenção redobrada: precisaremos estar ainda mais atentos à atuação municipal quanto ao “restante da cidade” que não está dento da UC do Cocó.

É importante estar atento ao que será construído no entorno da poligonal do parque, ou seja, em sua zona de amortecimento e no restante das áreas verdes da cidade, pois será imprescindível também estimular algum uso sustentável nestas áreas para garantir que a separação entre a sociedade e a natureza finalmente comesse a se dissolver.

Que bom seria se não precisássemos de muros ou grades para nos separar das áreas verdes não é verdade? Quão civilizados seríamos nós se não desmatássemos áreas protegidas, se não lançássemos esgoto nos rios urbanos, se não jogássemos resíduos da construção civil dentro das lagoas. Infelizmente a realidade nos mostra que estamos ainda distantes de tal nível de desenvolvimento (do pensamento) sustentável.

Conforme apresentado em diagnóstico realizado no Fortaleza 2040 e exposto a seguir, a natureza da cidade vem sendo dizimada ao longo dos anos em um ritmo cada vez mais acelerado, e isso se dá principalmente pela preponderância da construção civil e do mercado imobiliário os quais não parecem ainda estar plenamente atentos às possibilidades e obrigações para com a sustentabilidade, e cuja atuação vem sendo chancelada pelos governos municipais que muitas vezes só enxergam a cidade como um negócio.

InfograficoNovo

Fonte: Fortaleza 2040 (2016)

Ressalto que o propósito não é maldizer nenhum destes dois setores, afinal são sim fundamentais para a sociedade como um todo. Contudo está mais do que na hora de exigir um maior grau de responsabilidade tanto do poder público, quanto dos referidos setores no tocante às questões ambientais. Afinal a cidade não é um negócio para a maioria dos cidadãos. A cidade É e deve ser gerida como um locus onde a vida (em todas as suas formas) deverá ser respeitada, valorizada e protegida.

A sociedade não está mais disposta a aceitar que “o economicamente viável” seja o mandatário, diante do socialmente justo e do ecologicamente equilibrado no tripé da sustentabilidade, e aqueles que não entenderem este conceito (básico) estarão em breve pagando pelos próprios atos. Resta saber se esse custo vale a pena não é mesmo?

Diante disso e agora caminhando no sentido conclusivo, o que quero dizer é que a legalização do Parque do Cocó deverá sim ser festejada, mas não como o marco do “fim de uma luta”, mas sim como o início de uma ampliação de visão sobre a cidade, onde as construções sustentáveis, a educação ambiental, o reuso da água, a reciclagem, a manutenção da qualidade dos rios, lagoas e mar, o saneamento,  a qualidade do ar (dentre muitos outros fatores ambientais) passarão a ser exigidos como prioridade da gestão pública.

É preciso que todos os setores da sociedade estejam atentos também aos zoneamentos ambientais (que não são apenas zoneamento de áreas verdes), às leis de uso e ocupação do solo, à revisão do Plano Diretor, às canalizações de rios e riachos para viabilizar projetos de mobilidade(?), aos aterramentos de lagoas, às supressões de árvores por qualquer motivo, às podas inadequadas para salvaguardar fiações elétricas, à perda da biodiversidade, ao absurdo de termos uma área de transbordo de lixo no Jangurussu cujo chorume vai direto para o Rio Cocó… enfim a tudo o que diz respeito a uma gestão ambiental complexa e que deveria ser eficiente.

Que o dia 04 de Junho de 2017 seja sim um marco histórico, mas não somente da formalização do Parque do Cocó, e sim de um despertar social para um contexto ainda maior que nos mostra claramente que a natureza da nossa cidade vem sendo negligenciada há séculos e que algo precisa ser feito a respeito disso, antes que fique ainda mais tarde.

Compartilhando…

Vídeo institucional do Governo sobre a regulamentação: 

 

Crítica dos movimentos ambientalistas da cidade de Fortaleza:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s