Auditando o “Paraíso”

Para quem ainda não sabe, as auditorias são um tipo de vistoria técnica realizada por profissionais habilitados (por meio de cursos específicos) e cujo propósito é checar se um determinado empreendimento ou ambiente está de acordo com alguma norma específica para se conseguir uma regularização e/ou certificação.

Recentemente realizei uma auditoria em Jericoacoara, praia aclamada como paraíso para muitas pessoas e cuja vila é rodeada pelo Parque Nacional de Jericoacoara.

De fato, a paisagem é exuberante e excepcional e hoje, na vila podem ser encontrados hotéis, pousadas e restaurantes para todo e qualquer bolso, o que torna Jeri uma espécie de “Vila Cosmopolita”.

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Há quem diga que “Jeri já foi melhor porque era mais rústica e de difícil acesso”. E imagino que de fato algumas pessoas devam guardar a nostalgia de tempos mais calmos por ali.

Durante o processo de auditoria constatei alguns aspectos críticos e até preocupantes, sobretudo nesse momento em que o Aeroporto de Cruz iniciou suas operações. Com a chegada desse equipamento, o turismo tenderá a se tornar massivo, o que ampliará a demanda por hospedagem e serviços de traslado que precisa ser feito por carro 4×4 por ser necessário atravessar um campo de dunas.

A grande questão que se coloca é que hoje já existe uma frota de pelo menos 900 veículos rodando na vila, os quais começam a buscar os turistas nas várias pousadas e hotéis às 8h da manhã e no início da tarde novo tráfego pesado.

Sobre isso posso lhes garantir que não há paz e sossego em Jeri, a menos que você se hospede nos hotéis que ficam distantes da Rua Principal. Além disso, as ruas são estreitas e pensadas para os pedestres. Não existem calçadas e as pessoas precisam disputar espaço com os veículos 4×4.

Um outro ponto bem preocupante é que Jeri está ficando igual ao Pelourinho na Bahia, onde quem já foi sabe que a cada meio metro que se anda, tem alguém lhe abordando (insistentemente) para adquirir um produto ou serviço. Simplesmente TERRÍVEL.

Todos esses fatores evidenciam que o turismo hoje desenvolvido em Jericoacoara não foi planejado, tendo sua ampliação espontânea e apenas incentivada pela mídia institucional de alguns governos. No local não existe infraestrutura de saneamento adequada, sendo tudo praticamente realizado pelas associações locais, comunidade e grupos de empresários.

Não existe, por exemplo, um estudo de capacidade de carga realizado no local, o que precisa ser realizado com a máxima urgência por conta da chegada do aeroporto.

Do ponto de vista ambiental, está ocorrendo um notório avanço do nível do mar especialmente nos últimos 5 anos (conforme entrevista realizada no local) e as iniciativas de contenção estão sendo realizadas pelos próprios agentes locais.

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Mas o mais assustador de tudo é a possibilidade de privatização do Parque Nacional, o qual hoje está sob a tutela do ICMBio, mas que por falta de recursos não tem podido aplicar as ações previstas no Plano de Manejo.

A possível privatização do Parque para mim só demonstra a completa INCAPACIDADE dos governos de compreenderem os aspectos ambientais como fator prioritário em suas gestões e o DESPROVIMENTO do pensamento sistêmico e de longo prazo.

Termino esse post afirmando: O PARAÍSO ESTÁ AMEAÇADO! E ele é somente uma amostra de tudo o que está acontecendo em vários lugares do Brasil.

Fotos: Magda Maya (2017)

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