Ensaio sobre o abandono…

Era um dia qualquer…

Daqueles em que a gente amanhece e faz tudo como sempre, sem sequer pensar se tudo irá permanecer exatamente como esteve no dia anterior.

Era sim um dia comum, até que ele desceu as escadas, entrou num táxi e tudo parou.

Eu não sei dizer quanto tempo se leva para descer uma escada e entrar num táxi, mas sei que isso pode parar uma vida por longos anos. E não, não me refiro a “deixar de fazer o que deve ser feito”, como estudar, trabalhar… etc… Me refiro, na verdade, a deixar de VIVER as coisas.

Isso porque no exato instante em que você se depara frente à frente com o abandono, tudo lhe parece impermanente, volátil, fulgaz…

Seu olhar paralisa, sua respiração cessa, seu coração dói! (Sim, estão muito enganados aqueles que afirmam que coração não dói…)

Dói porque algo está sendo arrancado violentamente de você, sem que você possa fazer qualquer coisa a respeito. Dói poque dia após dia você passa a conviver com o desejo cruel e irracional de querer fazer o tempo voltar. Dói, especialmente, porque você nunca espera… porque ninguém espera ser abandonado… até que acontece.

Num instante vida, noutro instante… deserto!

Sim, o abandono é algo como se ver perdido em meio a um deserto gelado. Em uma fração de segundos o coração congela, a respiração cessa, o coração para. A partir daí, paradoxalmente, nada mais te causa frio na barriga.

É como se sua mente entrasse num looping infinito onde todas as vezes em que você pensa nisso, lá está a mesma imagem, a mesma paisagem, a mesma sensação.

No intervalo entre uma imagem e a mesma imagem é quando você faz o que tem de fazer. Você sobrevive.

Então você entende que caiu num deserto que, de tão sem fim, faz você estar nele enquanto ele também está em você. E não há nada a fazer quando se está sozinho num deserto, a não ser sobreviver. Caminhar rumo ao nada.

Não há norte, rumo, direção. No máximo uma miragem aqui e acolá. Mas você continua caminhando. Questão de sobrevivência.

Há momentos em que você até pensa que encontrou um caminho e segue a caminhar. Há também momentos em que você só quer desistir… se entregar. Cada amanhecer é um recomeço rumo a lugar algum.

Você pode encontrar cavernas, construir abrigos… mas nada te aponta um caminho de ida ou de volta. Você está quase sempre a fazer alguma coisa… por mais estranho que pareça você nunca para. E de tando não parar você acaba aumentando o próprio deserto… deixando pra trás caminhos, abrigos, possibilidades. Agora você é abandonado e abandonador. Ainda que por pura sobrevivência.

A boa notícia é que há uma saída.

Após 20 longos anos caminhando e sobrevivendo no deserto… cansada e sem esperança alguma, por um breve instante (bem menos tempo que se leva para descer uma escada) você respira fundo e para…

abRespira, para, abre os olhos e descobre que já não está mais no deserto e que não há mais um deserto em você.

Há um admirável mundo novo na sua frente.

 

 

 

 

Ao meu pai, dedico!

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